Um canto seguro na rede para se informar e refletir sobre saúde na gestação e no parto.

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Em algum momento da nossa caminhada enquanto comunidade, transformamos preocupação em sinônimo de cuidado. Nas mulheres gestantes foi incutido um medo constante de que a gravidez é perigosa e é preciso estar sempre alerta. Nas consultas médicas se tornou praxe alertar e apontar todos os riscos possíveis e imagináveis, também como se isso fosse sinônimo de assistência. Mulheres que confiam nos seus corpos e levam a gestação com tranquilidade, não raramente são taxadas como displicentes e irresponsáveis. Se algo sai do script, opa! Foi alguma coisa que ela deixou de fazer ou não se preocupou o suficiente. E claro que o parto normal, nessa toada patológica, foi taxado como “coisa de maluca”. Qual resposta melhor para uma situação tão repleta de riscos que não uma cirurgia?

Uma parte dessa crença vem de um referencial cultural ocidental, sulamericano, brasileiro e da contemporaneidade. Vivemos hoje uma busca implacável por controle, conforto, suavidade e fluidez na vida. Nos falta, cada vez mais, referenciais de rituais e processos de construção e transformação que envolvam abrir mão do controle. Reconhecemos que são esses movimentos de mudança, aqueles que envolvem espontaneidade, incômodos e enfrentamento, que acabam por ser os maiores motores de crescimento. Ao mesmo tempo, tentamos criar atalhos e pular etapas em busca de conveniência e prontidão. Escrevo isso sem qualquer pretensão em fazer apologia ao sofrimento. Na verdade essa correlação entre sofrimento e caminhos pedregosos que requerem resiliência e resistência, é consequência desse atravessamento.

No entanto, talvez essa influência cultural seja a questão mais superável e de menor impacto. Pois não se enganem, alguém precisa estar se beneficiando e muito com a hipermedicalização da gravidez e uma proporção de quase 80% de cesarianas no setor privado. Se isso não gerasse algum lucro, já teria sido combatido com mais fervor. Existe todo um aparato comercial que se apoia nas falsas indicações de cesariana e nas solicitações maternas (normalmente mal informadas) pela via cirúrgica de nascimento. 

Um outro aspecto que nos contamina é a presença barulhenta dos algoritmos em nossas vidas. Seja qual for a rede social ou comunidade digital, vai ser regida por um. E eles todos valorizam o que mais prende a atenção do usuário. E todos sabem que notícias ruins e emoções negativas (como medo e tristeza) são para todos nós os mais poderosos “clickbaits”. Não é à toa que de alguns anos pra cá, as mulheres têm se preocupado cada vez mais com eventos raros, que o algoritmo eleva a potências e relevância maiores do que estatística. Não raro, as mulheres chegam ao consultório buscando informações sobre placentas prévias, óbito fetal intra uterino, descolamento prematuro de placenta. Essas são entidades clínicas com altíssima letalidade e incidências de 0,4%, 1,5% e 1% respectivamente. Nenhum problema em que isso seja discutido em pré natal. A questão mora na presença desproporcional de eventos extremamente incomuns habitando o imaginário coletivo e alimentando cada vez mais uma visão patologizada da gestação e do parto. 

Mas calma, existe luz no fim do túnel e a gente se encontra aqui, na virada da maré. Cada vez mais mulheres têm tido acesso a informações de qualidade e a possibilidade de cuidados pré natais baseados em evidências e na valorização da fisiologia. E isso não fica mais nas mãos apenas de um grupo isolado. Grandes instituições produtoras de conhecimento de qualidade, como a Organização Mundial da Saúde e a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) agora são também agentes transformadores e disponibilizam protocolos assistenciais e outros materiais científicos que pautam uma assistência que reconhece a necessidade de uma obstetrícia baseada em evidências científicas sólidas. Grandes maternidades públicas e privadas já investem em modelos assistenciais que priorizam o parto normal e o acesso a uma assistência humanizada e respeitosa. 

Na prática privada, ainda que para um grupo de mulheres economicamente privilegiadas, existe um número crescente de equipes que oferecem um cuidado multidisciplinar e pautado em uma racionalidade. Consultas longas permitem a abertura a questionamentos horizontais e ao acolhimento de medos e angústias. A possibilidade se cria, nesse cenário, de que a desconstrução de mitos e o entendimento do processo à luz da razão promovam o vínculo e a confiança que concentram nesse tempo/espaço da consulta o investimento psíquico na vigilância. Ali eu vou para me preocupar, ali eu deixo minhas preocupações e entrego ao outro, profissional e capacitado, a responsabilidade por promover saúde, vigiar e prevenir. 

Estamos construindo um novo desenho da gravidez e do parto no imaginário coletivo. Uma imagem que inspire tranquilidade e confiança no corpo, no útero, no feminino. Dentro das nossas possibilidades e faltas, aceitando o não controle de todas as variáveis e criando relações assistenciais que permitam o florescer do protagonismo da mulher sem o ônus doa vigilância e da preocupação constantes.

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