Nunca na história da humanidade se falou tanto em inteligência emocional. E não é por acaso. Cada vez mais reconhecemos (cientificamente) o papel das emoções na vida do ser humano, seja na funcionalidade da vida diária, nas relações interpessoais ou mais impressionantemente na modulação de funções orgânicas.
Em todas as área das ciências humanas, o nosso funcionamento emocional é considerado parte inseparável do todo. Não existe mais estudar qualquer aspecto humano sem levar em consideração o que aquele ser humano sente. Na medicina, é claro, esse novo paradigma tem importância capital. E na forma de atender está sendo uma grande revolução. Paciente que antes vinham em busca de um exame e uma receita, agora esperam escuta, acolhimento e compreensão. E eles estão cobertos de razão. Tanto que tem se usado cada vez mais a palavra “clientes” no lugar de “pacientes”. Deixando claro que o papel passivo e protocolar do sujeito em consulta mudou e muito.
Isso criou também um novo desafio para os profissionais médicos. Na medicina, somos ensinados a seguir protocolos como tendência universal. Em casos específicos, ou em partes específicas dos casos, deixamos espaço pra individualização. E isso é ótimo. Os protocolos tem a função de agrupar as intervenções em torno daquelas mais eficazes e seguras. Boa adesão a protocolos é um sinal de boa prática.
Existe porém uma questão que se coloca na prática médica. A atenção psicossocial, a parte da escuta, acolhimento e condução de questões psicológicas e sociais, é por via de regra baseada na individualização. Não existem protocolos pras questões da natureza humana. Especialmente quando a pessoa que se encontra à nossa frente encontra-se vulnerável, seja por um processo de doença, seja por uma gestação.
Cada mulher que nos procura, terá questões únicas e deverá seguir um caminho também único no seu processo de cuidado. Sejam mulheres que buscam um parto normal ou não, todas precisarão lidar com medos, angústias, dúvidas e certezas. E nós, profissionais da obstetrícia precisamos saber conduzi-las, pois é isso que essas mulheres esperam de nós. Não, não precisamos ser terapeutas e tratar, por exemplo, traumas de desenvolvimento. Não somos habilitados e não possuímos ferramentas para isso em nossa formação médica.
Não podemos, no entanto, fazer uma escuta sensível, abrir a conversa pra uma fala mais íntima e delicada, e simplesmente não fazer nada com isso. É preciso saber compreender onde dói, onde é forte, onde é mais vulnerável, onde dá pra ir e onde não dá. E é preciso
também apontar caminhos. Tendo sempre em mente que um caminho nunca é igual a outro.
Vamos considerar uma situação hipotética. Imaginem uma mulher que tem um desejo muito bem elaborado de ter um parto normal e natural, sem nenhuma intervenção. Ela já leu e estudou muito sobre o tema. Conhece as intervenções possíveis e sabe de seus riscos e benefícios. Na sua construção de um ideal de experiência, ela percebe que seus maiores medos giram em torno da realização dessas intervenções e dos seus possíveis riscos.
Num caso como esse, sabemos que entrar na sala de parto com preocupações e tensões adicionais, pode criar um ambiente neuroendócrino não favorável à fisiologia do parto. E sabemos também que não temos a possibilidade de prever e controlar o desenrolar desse processo. Não podemos garantir, por exemplo, que não haverá uma alteração importante da frequência cardíaca fetal, com consequente indicação cirúrgica. Não podemos também excluir totalmente que essa parturiente, em alguma momento, solicitará analgesia.
Conduzir as consultas e formação de vínculo com essa mulher em torno de garantias que não podem ser asseguradas é um caminho pra frustração. E por vezes, mulheres que tiveram parto lindos, seguros e com intervenções pontuais e bem indicadas, saem dessas experiências super bem sucedidas sentindo-se culpadas e insatisfeitas.
Um caminho possível aqui, seria primeiro legitimar o desejo dela por um parto sem intervenções a partir de uma escolha pessoal e partir de dados técnicos que evidenciam sua segurança e seus benefícios, construindo um vínculo de confiança na sua autonomia. Ao mesmo tempo, trazer à tona nas trocas a impossibilidade de controle e o papel benéfico das intervenções bem indicadas. Criar um ambiente interno nela que não esteja amarrado em expectativas limitantes e que podem prejudicar não só a fisiologia do parto, como o direito de ser livre e ter uma experiência positiva e única.
Há alguns meses atrás atendi uma cliente que tinha exatamente esse perfil. Ao chegar às 41 semanas de gestação e ter que lidar com uma possível indução de parto. Se sentiu desconfortável com seu próprio corpo, trazendo à consulta sentimentos de culpa e a sensação de que havia algo de errado com seu processo. Discutimos ao longo da consulta sobre a libertação de si mesma em relação às estruturas de controle interno e às expectativas. E construímos juntos uma perspectiva de que parir é também aceitar as coisas como elas vierem, a partir do reconhecimento da perda de controle.
No dia seguinte ela entrou em trabalho de parto e teve um parto lindo e sem nenhuma intervenção. Escreveu em suas redes sociais algo do tipo: “Agradeço a anestesista por ter estado lá, e mais ainda por não ter precisado dela.” Essa mulher entendeu exatamente o que trabalho deveria fazer internamente.
É fundamental que nós médicos criemos um aparato teórico e prático para pode lidar, com escuta e manejo, com os dilemas psicossociais humanos. É nosso dever criar em consulta espaço para que as gestantes possam acessar suas dimensões mais pessoais e se sintam livres e estimuladas a questionar, desejar, desabafar e elaborar suas emoções e desejos.
É fundamental ainda que as nossas clientes possam percorrer esse caminho ao longo do pré natal. Um caminho que é só delas. Que não vai ser igual àquele das suas amigas, da sua mãe, das suas irmãs. Um caminho único. É preciso criar espaço interno para entrar em contato com as próprias emoções e se autorizar a ter a sua própria individualidade também na jornada de gestar e parir. É preciso se autorizar a querer diferente.
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