Muitas vezes pessoas me perguntam porquê escrevo tanto sobre os perigos de romantizar o parto normal. Tem um pouco de pessoal nessa escolha e tem também um pouco de um posicionamento profissional.
Quando um profissional se comunica com seu público, seja num ambiente individual, seja num ambiente coletivo (como as redes sociais), ele tem uma grande responsabilidade sobre as opiniões e informações que passa. E não tem como negar: nas duas situações estamos todos fazendo um pouco de propaganda de nós mesmos. Faz parte da natureza humana. Tanto pela vaidade de ser visto e validado, quanto pela necessidade de que pessoas conheçam e entendam seu trabalho. Nada disso é um problema. O importante aqui é reconhecer essa exposição para evitar conflitos de interesse. É importante cuidar da nossa dimensão ética (spoiler).
No caso específico dos profissionais de saúde, conflitos éticos inadvertidos, podem gerar a transmissão de informações sem precisão ou validade científica, com o único objetivo de atrair e manter uma clientela. E isso não pode, de forma alguma, acontecer.
O ser humano se utiliza de uma série de processos de pensamento e linguagem para compreender e dar conta da realidade. Usamos por exemplo a dialética, baseada na troca através do diálogo, para confrontar opiniões e chegar a consensos. A ética para pautar limites nas interações humanas. A estética para cuidar da forma. A técnica para definir campos teóricos e práticos. E a poética, rica em metáforas, para acessar as dimensões da beleza e expressividade. A linguagem romântica tende a usar uma abordagem poética. Não se espera nesse tipo de linguagem que as diversas dimensões da realidade e da linguagem sejam contempladas.
E o que cargas d’água isso tem a ver com parto? Tudo. O parto é um fenômeno da realidade e da natureza. Expressão máxima da vida. Tem infinitas dimensões: biológica, familiar, religiosa, ética, estética, técnica e, sim, também poética. Quando um profissional escolhe falar sobre esse tema, tem por obrigação (no caso, ética) de respeitar essas diversas dimensões. Uma mulher que busca um diálogo sobre essa experiência espera obter informações que lhe preparem para viver os desafios que se apresentarão. Questões como segurança (a sua e a do feto), manejo da dor, o cansaço, a lida com as possíveis emoções, tudo isso faz parte da preparação para a maternidade. Normalmente, não será na dimensão poética que encontraremos elementos desafiadores e que exijam preparação.
Vamos para a prática. Se eu lhes apresento um produto, um tênis por exemplo, e lhes digo que calçar esse tênis é como “pisar em nuvens”, estou usando de uma linguagem poética e romântica para ressaltar o conforto que essas sensações em teoria provocam. E se por acaso alguém experimenta o mesmo produto e tem uma opinião radicalmente oposta, vamos combinar, nenhum grande mal foi feito. Por outro lado, se em diálogo com uma gestante (ou coletivamente com várias) lhes digo que parir é como “atravessar um grande mar com ondas e uma brisa fresca no corpo”, existe uma grande chance de gerar uma expectativa potencialmente frustrante quando essa mulher tiver que lidar com uma madrugada inteira de dores intensas que vêm a cada três minutos.
O resultado é radicalmente diferente, se em processo dialético, ao longo de diversas trocas, aquela mulher for guiada para se aproximar, ainda que no campo das idéias, das múltiplas dimensões envolvidas. Parto não precisa ser difícil e sempre será profundo e complexo. É preciso abraçar essa complexidade e essa profundidade ao longo da gestação. Respeitando o ritmo e os limites que a história de cada mulher vai ditar. Falar sobre dor, sobre cansaço e sobre beleza. Encarar a possibilidade das emoções mais singelas e potentes, sem esquecer que pode haver medo.
Fingir que uma experiência é menos complexa, não fará com que ela tenha de fato menor complexidade.
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